5dez 2021
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A cena genérica como embreante paratópico

Apresento os resultados alcançados em minha tese de doutorado. Analisei as cartas privadas trocadas entre Mário de Andrade (MA) e Carlos Drummond de Andrade (CDA) no período de 1924 e 1930. As hipóteses centrais da tese foram duas: i) as cartas privadas trocadas entre MA e CDA funcionam como um gênero do discurso (cena genérica) e não como um hipergênero, conforme postula Maingueneau no livro Discurso Literário (2012); e ii) essas cartas privadas, enquanto uma cena genérica (um gênero do discurso), funcionam também como um embreante paratópico. Com base nessas hipóteses, meus objetivos foram: i) analisar como se dá o imbricamento das três instâncias constitutivas do funcionamento da autoria (a pessoa; o escritor; e o inscritor) nas cartas trocadas entre MA e CDA; ii) analisar a constituição da paratopia criadora de MA e de CDA na produção epistolar engendrada entre eles; e iii) analisar as cenografias construídas nas/pelas cartas privadas. Em relação à metodologia de pesquisa, assumi àquela da Análise do Discurso de linha francesa, além de assumir também que o imbricamento entre texto e contexto, ou melhor, entre discurso e condições de produção é radical. Os resultados da pesquisa foram: i) tais cartas privadas, enquanto uma prática discursiva engendrada por dois autores consagrados do campo literário brasileiro, funcionam como um gênero do discurso, por apresentarem, além de outros fatores, o texto como forma de gestão do seu contexto; e ii) tais cartas privadas, enquanto uma cena genérica (um gênero do discurso), também funcionam como um embreante paratópico, pois elas operam, ao mesmo tempo, com as questões linguísticas, históricas e paratópicas dos autores. Nesse sentido, as cartas privadas trocadas entre MA e CDA funcionam enquanto uma instituição de fala do posicionamento modernista brasileiro, que garante as identidades criadoras de MA e CDA, bem como regula todas as suas produções literárias (dos espaços canônico e associado). Essas cartas privadas funcionam, assim, como embreantes paratópicos, pois estão para além da ideia de carta íntima. Além disso, essas cartas privadas funcionam como um embreante paratópico na medida que instauram um posicionamento e gerem a relação entre os integrantes da comunidade discursiva. Nessa perspectiva, tais cartas não se restringem a suas rotinas genéricas, pois, ao mesmo tempo em que MA e CDA falam de si, falam também do grupo dos modernistas brasileiros. A partir dos resultados da minha tese e enquanto encaminhamento de novas pesquisas, propus também, em uma pesquisa de pós-doutorado, investigar se é possível ou não consolidar a cena genérica como um quarto embreante paratópico possível, juntamente com a cenografia, o ethos e o posicionamento na interlíngua. Para isso, estendi as análises e o corpus, abrangendo, assim, todos os discursos constituintes considerados por Maingueneau (2012), não me limitando apenas ao discurso literário, considerando também os discursos religioso, científico e filosófico.