5dez 2021
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Carneiro Ribeiro: o horizonte de retrospecção de sua These

Ernesto Carneiro Ribeiro (1834-1920) foi um importante médico, gramático e educador baiano, sendo mais conhecido por essas suas duas últimas atividades. Pouco conhecida, no entanto, é sua These de Medicina, apresentada à douta banca da Faculdade de Medicina da Bahia no ano de 1864. Numa época como a nossa, altamente tecnológica, permeada por redes sociais e lutas identitárias, causa estranheza o interesse por um autor e pela sua obra, cujos reflexos são produtos do século XIX, que muitos poderiam reputar como ultrapassados. Essa estranheza, entretanto, dá lugar quando se trata de um autor, negro, que alcançou pleno sucesso e reconhecimento em uma sociedade escravista como era a nossa de então; e racista e preconceituosa como é a nossa de agora. Dá lugar mais ainda, quando tratamos dessas questões sob a perspectiva teórica da História das Ideias Linguísticas (Auroux 1992, 2006, 2008; Colombat, Fournier e Puech, 2017). Falar de Carneiro Ribeiro hoje é importante não só pelos motivos atrás referidos, mas também pelo teor de suas ideias médicas, filosóficas e gramaticais, havendo, segundo entendo, uma forte e necessária relação entre elas. Nesta exposição, meu objetivo é abordar as ideias encontradas na These de Medicina de Carneiro Ribeiro e analisar seu horizonte de retrospecção (Auroux 2006), que, conforme já pudemos observar, tem uma forte relação com a filosofia, uma vez que se trata de uma tese de medicina a um só tempo no fértil campo da psiquiatria e no, então, nascente campo da psicologia. Minha hipótese é que as ideias do Carneiro Ribeiro médico ajudaram a conformar as ideias do Carneiro Ribeiro gramático, e contribuíram para o desenvolvimento dos aspectos teórico e epistemológico da construção de sua futura obra gramatical: a Grammatica Portugueza Philosophica, publicada em 1881; atualmente, corpus de pesquisa de meu estágio pós-doutoral, que vem sendo realizado na Universidade de São Paulo.