5dez 2021
00:00 UTC
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“Educação (não) é essencial”: discursos sobre a volta do ensino presencial

Este trabalho tem por objetivo analisar discursos que circularam em uma conta do Instagram criada para apoiar o movimento de defesa da volta ao ensino presencial em 2021. Que dizeres são possíveis ao se enunciar sobre o retorno da aulas presenciais em uma rede social? Que imagens sobre a pandemia, a educação básica, professores e alunos são produzidas nesse movimento enunciativo? Esses são alguns dos questionamentos que nos propomos a pensar a partir dos pressupostos teórico-metodológicos da Análise do Discurso pecheutiana e da Análise Dialógica do Discurso, tendo em vista que as práticas linguísticas ensejam efeitos de verdade por meio da articulação língua-história-sentido-ideologia. Pautamo-nos ainda nas considerações de Dardot e Laval (2016) e Laval (2019) sobre o funcionamento do neoliberalismo enquanto racionalidade que forja subjetividades e se espraia para todos as esferas da vida social de modo a instaurar uma visão empresarial de escola. Em termos metodológicos, buscamos, nas materialidades linguístico-imagéticas, regularidades enunciativas que (des)velem o jogo de paráfrase e polissemia em que o intradiscurso e o interdiscurso se imbricam nos processos de significação. Nossas análises apontam que os enunciados produzidos no referido Instagram colocam em cena vozes em embate, as quais se inscrevem no: i) discurso do abandono; ii) discurso da essencialidade da educação; iii) discurso informacional; e iv) discurso da (des)igualdade das profissões. Tais discursos, que aqui separamos por razões didáticas, produzem efeitos de caos, desamparo, autoridade, culpabilização dos profissionais da educação, banalização dos riscos da pandemia, dentre outros. Trata-se de uma discursividade que desarranja sentidos estabilizados sócio-historicamente, a partir do imbricamento de interdiscursividades pedagógica e neoliberal, que, por sua vez, funcionam pelo silenciamento/apagamento das desigualdades sociais e pela legitimação de uma lógica econômica capitalista.