5dez 2021
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O plural não-individualizante no português brasileiro

Considere a seguinte frase:
(1) Eu estou com saudades de você.
Já é sabido que o morfema -s em português codifica plural e o plural codifica uma multiplicidade de indivíduos. Na frase acima, temos o nome ‘saudades’ que está no plural e, portanto, deveria estar quantificando indivíduos – isto é, instanciações de uma mesma entidade, no caso, ‘várias saudades’ – mas esse não parece ser esse o caso.
É difícil imaginar alguém interpretando a frase (1) como vários tipos de saudade ou mesmo interpretar ‘saudades’ como múltiplos momentos de saudade, embora essas sejam interpretações possíveis.
Temos duas explicações para este caso: ou o nome ‘saudades’ quantifica múltiplos indivíduos, como a literatura prediz (mas que não faz muito sentido do ponto de vista interpretativo); ou ele não quantifica indivíduos, o que até onde sabemos, é algo pouco estudado na literatura semântica de língua portuguesa.
Caso a segunda opção esteja correta, estamos diante de um plural não-individualizante. O plural não-individualizante é um plural que não quantifica sobre indivíduos, mas sim outros tipos informação pragmática como intensidade, abundância, formalidade entre outros. Independente desses usos, o plural não-individualizante caracteriza-se por ser um plural marcado morfologicamente, mas que não veicula informação de quantificação de indivíduos. É um plural claramente não canônico.
Na prática, o que queremos dizer é que o nome ‘saudades’ em (1) é simplesmente ‘uma grande saudade’ ou simplesmente ‘saudade’ e não ‘mais de uma saudade’ como a literatura prediria.
Neste trabalho, vamos fazer uma aproximação deste fenômeno no português brasileiro e em outras línguas. Para o português, montamos um experimento para tratar da interpretação destes nomes. Nós utilizamos seis nomes abstratos: três contáveis (dores, regalias e dificuldades) e três massivos (ciúmes, saudades e cócegas).
Os participantes leram dois contextos específicos: um favorecendo cardinalidade e um segundo favorecendo massividade/intensidade. Por exemplo, com o nome ‘dores’, o primeiro contexto mostrava um personagem fictício sofrendo com três pequenas dores no corpo. O segundo mostrava um outro personagem sofrendo uma única grande dor, como uma picada de cobra. Ao final dos dois contextos, o participante lia e respondia a pergunta ‘Quem sentiu mais dores? Personagem A ou B?’.
Se o falante escolhesse o segundo contexto, o plural não estava desencadeando uma multiplicidade de dores, mas só uma única grande dor. Um caso claro de plural não-individualizante.
Os resultados do teste mostraram que todos os nomes analisados, tanto massivos, quanto contáveis; tiveram uma interpretação massiva, ou seja, o plural estava se referindo a uma única entidade. Os resultados do estudo desafiam o que está postulado na literatura massivo-contável sobre o morfema -s no português, tanto para nomes massivos e especialmente para nomes contáveis.